Sobre não entender o que se sente
Sentimentos são muito confusos para mim. Eu consigo reconhecer emoções, estados afetivos transitórios básicos como tristeza, alegria, raiva, entre outros. Mas sentimentos são outra história.
Independente de definições acadêmicas, entendo sentimentos como algo mais duradouro do que uma emoção e com um significado atrelado. Eu posso me sentir triste e isso é uma emoção. Eu me sentir triste porque meu emprego é um lixo é um sentimento.
É nesse contexto que digo que eu não entendo o que eu sinto a maior parte do tempo. Eu tenho emoções e consigo identificá-las, mas geralmente tenho dificuldades para entender o sentimento. O que está por trás desses estados emocionais costuma ser uma incógnita pra mim. Existem momentos que demoro meses para entender o que está acontecendo, porquê aquela emoção segue voltando.
E existem dois sentimentos (um deles não é necessariamente um sentimento, mas relevamos) que, durante 30 anos da minha vida, eu achava que não sentia: saudades e tédio.
Saudades: Esse sentimento sempre me pareceu estranho. Sempre que alguém dizia estar com saudades de mim, eu respondia que também estava por educação, mas sinceramente na maior parte das vezes eu não estava sentindo absolutamente nada. Até que uns tempos atrás me deparei com um post no reddit falando que, quando uma pessoa te encontra e diz que estava com saudades, o que ela realmente quer dizer é que ela está feliz em te ver, e não que ela de fato esteve se remoendo de saudades esse tempo em que vocês ficaram sem se ver. Eu juro por Deus que a língua dos neurotípicos vai me matar um dia. De qualquer forma, entendi que as pessoas usam a palavra saudades de forma que ela não quer dizer o que ela de fato significa, e com o tempo fui aprendendo a reconhecer de fato o que seria sentir saudades de alguém.
Não vou mentir, não é como se eu nunca tivesse sentido saudades. Mas, em geral, eu só sentia saudades de gente que realmente estava no meu dia-a-dia, ou seja, relações muito íntimas como um namorado ou um familiar. Foi aos poucos que fui percebendo que, quando penso naquela amizade que não vejo há tempos e me pergunto como a pessoa está, isso é saudade. Quando sinto vontade de chamar uma pessoa com quem não interajo há tempos para sair, isso é saudade. Na minha cabeça, a saudade era um estado de sofrimento por estar afastada daquela pessoa. Com o tempo, finalmente entendi que não. A saudade não precisa ser um sofrimento por causa da falta da pessoa, ela pode ser só um lembrar da existência de alguém e querer ver essa pessoa de novo. Uau.
Tédio: Outro sentimento estranho para mim, porque eu sinto que sou uma pessoa que se entretém muito facilmente. Sou uma pessoa bem aberta a novas experiências e justamente por isso consigo encontrar sempre algo com o qual me divertir, nem que seja as histórias que conto na minha própria cabeça. Por isso, achava que eu não sabia o que era tédio.
Até que, de uns tempos pra cá, comecei a ficar com um mau humor desgraçado. Provavelmente por causa do trabalho, admito. A falta de tempo para conseguir me dedicar a coisas que me interessam, a falta de energia para fazer outras coisas e a sensação de que não vou conseguir fazer nada direito no pouco tempo livre que tenho acabam por me deixar com um mau humor tremendo, me impedindo até mesmo de fazer uma atividade que não requer um neurônio sequer, como assistir algo bobinho. Geralmente, quando me encontro nesse estado, falo pras pessoas que "estou chatinha". Depois quando me perguntam o quê isso quer dizer, explico que estou de mau humor e sem vontade de fazer nada, porque nada me engaja, nada me entretém. Até que um dia uma pessoa virou pra mim e disse: "ah, então você está entediada". Eu pude ouvir a lâmpada se acendendo acima da minha cabeça.
É muito estranho estar aprendendo sobre os próprios sentimentos aos 30 anos. Sendo graduada em psicologia, entendo que isso é o tipo de coisa que deveríamos aprender na primeira infância. E, de fato, muitas pessoas não aprendem, até porque a disponibilidade emocional de pais e cuidadores no capitalismo tende a ser mínima, quando não inexistente. Porém, ainda assim, sinto que grande parte das pessoas passa a entender os próprios sentimentos um pouco mais cedo do que eu. Me frustra um pouco essa defasagem, mas ao mesmo tempo me rende risadas e oportunidades de aprender novas coisas sobre mim. Me divirto.