O preço que se paga
Se essa for sua primeira vez lendo algo que escrevo, você provavelmente não deve saber que eu sou uma pessoa AuDHD, ou seja, uma pessoa com transtorno de espectro autista + transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.
Já se você me conhece de tempos, já deve estar acostumade com os posts em que falo sobre como minha saúde mental é um negócio que custa muito a ficar num patamar aceitável para que eu funcione minimamente bem. E muitas vezes nem assim.
Eis que na última semana participei de dois eventos que sugaram tudo de mim:
- As manifestações pela democracia, em apoio ao Lula;
- Show do Tigers Jaw.
Foi lindo. Tudo isso foi lindo demais de viver, e eu não trocaria isso por nada. Porém, desde a manifestação, tenho funcionado cada vez menos. Dificuldade para falar, dificuldade para fazer coisas simples de autocuidado, irritabilidade alta, maior sensibilidade à sobrcarga sensorial. Não tá bacana. Tenho tentado me regular fazendo coisas que são dos meus interesses especiais, mas estaria mentindo se dissesse que está funcionando. Não está.
Sendo AuDHD, o preço que se paga para ter momentos bons é muito alto. E a verdade é que eu só pude ter esses momentos bons porque eu não estou empregada num trabalho presencial. Faço meus freelas, faço uns bicos aqui e ali, mas preciso ficar no meu cantinho para conseguir funcionar em outras situações sociais.
E a questão é bem essa, sabe? Eu me sinto muito mal por não conseguir manter um emprego direito, mas ao mesmo tempo eu mereço me divertir. Eu mereço ter bons momentos com amigos, eu mereço ter direito a lazer e descanso. O capital não permite isso, mas sigo resistindo.
Afinal, a alternativa não é nem morrer de trabalhar: é morrer de parar de funcionar.
Eu me recuso.